quinta-feira

O tempo


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Os homens


Sofia atende o telefone e fica a falar com Júlia durante algum tempo. Desliga o telefone com ar intrigado e apressa-se a acabar o seu banho. Agora tinha razões maiores para ir mais depressa ao escritório. Júlia iria buscá-la depois de almoço, já que durante o almoço estava ocupada com um cliente e não poderiam falar.
Frederico tinha-a deixado antes de ir assinar um contrato qualquer. Não lhe perguntara o quê nem ele lho dissera. Afinal nada sabia da vida dele. Em todo o tempo que passavam juntos nunca conversaram de coisas pessoais. Eram coisas banais e divertidas num tom sempre atencioso que vinham á baila. Parecia-lhes bastar isso. Afinal ele estava sómente a ajudá-la por se sentir na obrigação de o fazer... O que era curioso é que parecia sentirem-se bem e tudo lhes parecer fácil e normal.
Os homens... Nunca tivera dificuldades em relacionar-se com o sexo oposto. Tudo fluía naturalmente até que por vezes as vidas se cruzasssem de forma mais profunda. Aí começavam as grandes diferenças entre todos os homens com quem se cruzara. Com todos aprendera novas formas de estar e ser. Crescera e fizera de si o que era hoje. Com as alegrias, as tristezas, os sonhos e as desilusões, fez-se mais forte. Construiu-se outra, perdendo e ganhando aqui e ali. Descobriu-se mulher inteira no renascer das amarguras do amor. Não se tornara uma mulher fria, mas sabia agora distanciar-se das coisas e vê-las numa perspectiva mais alargada. Como se o propósito das coisas não lhe pertencesse só a ela. Fosse parte de algo maior. Sentia que nada lhe acontecia por acaso e que nada lhe pertencia verdadeiramente. Como se fizesse parte dum todo que ganhava ou perdia conforme ela o fizesse. Decidira não se deixar vencer.

sábado

Caçador de sóis


Caçador de sóis
Ala dos Namorados

Pelo céu às cavalitas,
Escondi nos teus caracóis,
A estrela mais bonita, que eu já vi

Eu cresci com um encanto,
De ser caçador de sóis,
Eu já corri tanto, tanto para ti

Fui um príncipe encantado
Montado nos teus joelhos,
Um eterno enamorado, a valer

Lancelot de algibeira,
Mas segui os teus conselhos
Para voltar à tua beira
E ser o que eu quiser

(Refrão x2)
Os teus olhos foram esperança
Os meus olhos girassóis
Fomos onde a vista alcança da nossa janela

Já deixei de ser criança e tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela nos teus caracóis

(Refrão)
Os teus olhos foram esperança
Os meus olhos girassóis
Fomos onde a vista alcança da nossa janela

Já deixei de ser criança e tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela nos teus caracóis

(Refrão)
Os teus olhos foram esperança
Os meus olhos girassóis
Fomos onde a vista alcança da nossa janela

Já deixei de ser criança e tu dormes à lareira
Ainda sinto a minha estrela nos teus caracóis

O tempo


Decidiu mimar-se. Despiu-se, cobriu cuidadosamente o gesso com matéria plástica e no fim vestiu-lhe um saco plástico que selou cuidadosamente. Pegou nos sais, deitou-se na banheira, cobriu-se com eles e deixou que a água morna que tivera o cuidado de temperar antecipadamente a cobrisse devagarinho e desfizesse os sais que começavam a libertar o aroma e a espalhá-lo por todo o corpo. Deixara a perna levantada, engenhosamente apoiada a um apoio de banheira. Uma musiquinha suave enchia o ambiente e levava-a a viajar. Não sabe por quanto tempo ficou ali. Perdia-se ás vezes no tempo. Por tempo demais. E tanta coisa passava por ela sem se dar conta! Era tempo de dar conta do tempo. Pensou um pouco nos últimos dias e no que lhe tinha acontecido. A ela, a Júlia, a Maria, a todos que se cruzaram com ela duma forma ou doutra. E admirou-se de tanta coisa em tão pouco tempo. E questionou-se com tanta outra. Afinal nada sabia de Frederico. E Francisco, que novidades trará?
Há algum tempo já que não falava com Júlia e pressentia-a preocupada, quase ausente. Tinha de tirar um tempo para falar com ela. Ai o tempo! Esse atrevido que não se mede nem deixa medir. Não se contem nem deixa conter. Passa sem deixar nem sombra de tão rápido avançar. Mesmo que por vezes pareça lento. Ilusão, mera ilusão. O mesmo sol e a mesma lua num só abraço o fazem ser sempre o mesmo, sempre igual.
Mãe! E Sofia acorda dos pensamentos que a levaram dali. Sim, Maria! Responde.
Maria entreabre a porta duma casa de banho enevoada, telefone para ti, é a tia Júlia. Atende.

terça-feira

Partilha


Nessa noite apesar do cansaço e de algumas dores que nem os analgésicos conseguiam resolver Sofia e Maria conversaram até á exaustão. Era já de madrugada quando finalmente cederam e acabaram por adormecer na cama enorme de Sofia.
Há muito que não o faziam e as gargalhadas que deram saíram-lhes com mais vontade do que nunca. Falaram de coisas esquecidas e deram-lhes de novo vida arejando-as, tirando-lhes os cheiros a bafio que se tinham já instalado. Redescobriram cumplicidades e vontades de partilha. Este tempo de ausência apesar de necessário atirara-as para caminhos diferentes e procura de novos rumos e formas de estar. Tinham-se quase esquecido de como era bom serem e estarem as duas. Como sempre tinham estado.
Sofia acordou com o sol a bater-lhe na cara e uma ligeira dor no tornozelo. Quis levantar-se e lembrou-se do gesso e do incómodo que ele lhe provocava. Tentou não acordar Maria que ainda dormia e devagar rastejou para fora da cama. Tinha sede e também alguma fome. Tentou ir até á cozinha sem fazer barulho, encostada á parede e apoiando-se ligeiramente no pé engessado. Foi uma gargalhada que a fez virar-se. Mãe que figura fazes! Maria Henrique entretanto acordara e observava a mãe que ao tentar não a acordar fazia movimentos pouco elegantes.
Levantou-se dum salto e ajudou a mãe a ir até á cozinha onde lhe preparou o pequeno-almoço. A seguir foi a confusão do banho. Aí Sofia fez questão de fazer tudo sozinha. Só precisava dum bom saco plástico para proteger o gesso. Não era nenhuma inválida!
Daí a uma hora chegou Frederico que levou mãe e filha ás compras. Sofia não quis ficar sozinha. Também quis participar. Tinha de o fazer. Depois teria de ir até ao escritório. Tinha coisas a resolver. E tinha ainda de falar com Júlia. Contar-lhe acerca do telefonema de Francisco e saber o que se passava. Ela devia saber mais alguma coisa. Estava curiosa. E…
Frederico, você deve ter a sua vida, não pode andar sempre atrás de nós, a cuidar de nós… Diz Sofia a Frederico, preocupada. Frederico responde-lhe que não. Não se preocupe, devo-lhe isto. É minha obrigação. E para já não tenho mais nada a fazer. Já lho disse. Quando tiver, lho direi.
Ah, amanhã vou trazer o Hércules. Quero que o conheça e lhe perdoe, se puder. Eu gostaria que assim fosse. Posso fazê-lo?
Claro, responde Sofia, traga-o. Não tenho razões para não gostar dele. Foi um acidente. Só isso. E a Maria também gostaria de o conhecer, aposto.
Fica combinado, então. Amanhã vamos passear o Hércules.

segunda-feira

Telefonema


A príncipio não lhe reconheceu a voz. Na verdade não contava com ele. Apesar da Júlia ter falado dele há dias não o imaginava do outro lado da linha. Nem o imaginava já ali. Francisco! Há tanto tempo! Que é feito de ti, rapaz?
O tom de surpresa da mãe fez Maria voltar-se. Francisco?! Maria adorava-o. Tratava-o carinhosamente por Tio. Seria o mesmo Francisco de que ela se lembrava, o Tio Francisco. Olhou para a mãe expectante. Sim, acenou-lhe a mãe. Era mesmo ele.
Conversou durante algum tempo ao telefone e Frederico presenciou a alegria e a ansiedade que crescia entre as duas. Pensou em mil coisas e sentiu-se quase a mais. Sentia-se quase invadido quando ainda agora começava a entrar naquele espaço e a achar-se tão bem!
Quando Sofia desligou o telefone, Maria não a largou mais. Quis saber tudo o que Francisco lhe tinha contado. Quase se esqueciam de Frederico e da pizza que entretanto esfriava não fosse o bom senso de Sofia. Não, primeiro jantamos e entretanto pomos Frederico a par do que se passa. Não é justo deixá-lo de fora.
Frederico ainda disse que não valia a pena mas acabou por assentir porque afinal estava até curioso.
E foi assim que durante o jantar Sofia acabou por contar que daí a dois dias, no próximo fim de semana, o Francisco viria visitá-las com um amigo com quem tinha um projecto. Acrescentou que ele parecia muito entusiasmado e algo misterioso.
E não perguntou por mim?
Claro que sim, Maria. Responde-lhe a mãe. Aposto até que te traz uma surpresa daquelas a que já te habituaste.
Contaste-lhe que estás assim, meia deficiente? Ele vai-se rir. Tu que nunca páras, agora agarrada e a depender de duas canadianas e doutras pessoas!
Vá não me chateies, não sejas mázinha.
Olharam uns para os outros e deixaram-se rir.
Frederico saiu só depois de combinar a que horas ia buscar Maria para fazer as compras para o fim de semana. Despediu-se com um caloroso até amanhá.

sexta-feira

Deep within


Deep within the corners of my mind
Melody Gardot


A música embalou a conversa que se prometia longa não fosse o dever que chamava Júlia e as dores que incomodavam Sofia. Frederico levou-a a casa como prometido e pediu-lhe que o chamasse quando precisasse. Trocaram números de telefone e despediram-se com mais um pedido de desculpas de Frederico.
Sofia fechou a porta e deitou-se no sofá depois de por uma musiquinha a tocar. Elevou o pé com a ajuda duma almofada e só depois telefonou a Maria a contar-lhe o sucedido. Maria prontificou-se logo a voltar a casa. Quem a ajudaria a fazer a comida e a ir ás compras? Sofia ainda insistiu que não, mas de nada valeu. Maria viria ainda essa noite. Deixaria tudo pronto e só depois voltaria. Despediu-se e Sofia não pode deixar de ficar com um sorriso. A sua menina ia cuidar dela. Sentiu uma pontinha de orgulho e deixou-se adormecer sob o efeito da medicação, ansiosa pela sua vinda e por lhe contar o que tinha acontecido.
Acordou com o telefone a tocar. Como está a Sofia? Era Frederico. Lembrei-me que talvez tivesse fome e encomendei uma pizza. Partilhamos?
Viu as horas. Era já tarde. Tinha dormido toda a tarde. Não tinha sequer almoçado. Na realidade tinha fome e Maria ainda não tinha chegado.
Desculpou-se que estava á espera da filha. Melhor, respondeu-lhe Frederico, comemos os três. Vou ter consigo daqui a meia hora. Ponha-se bonita.
Bonita? Bem… Ainda nem se tinha visto ao espelho. Nem se tinha lavado nem trocado de roupa. Teria de andar ao pé-coxinho. As canadianas não lhe davam jeito nenhum. Teria de se habituar. Força Sofia! Também não queria que Maria a visse assim e ela devia estar quase a chegar.
Logo que se aprontou ouviu telefone e campainha a tocar. Uf! Mesmo na hora. Dirigiu-se á porta e deparou-se com Frederico e Maria. Ambos conversavam como se conhecessem já de há muito. Tinham-se cruzado na entrada. Bem… Parece que não preciso de vos apresentar. Entrem.
Maria abraçou a mãe. Frederico ficou a olhá-las. Posso?
Entre Frederico. Ponha-se á vontade. Mas e o seu cão?
Esse ainda não vem. Só quando a Sofia o perdoar. Mais tarde… Agora atenda o telefone, continua a tocar.
Ambos entraram enquanto Sofia atendia o telefone.